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Conheça o Zezinho, presidente da ASSOPECOM e da Aflodef

Atualizado: 30 de Out de 2017


http://videos.clicrbs.com.br/sc/horasc/video/hora-santa-catarina/2017/08/nossa-gente-hora-jose-roberto-leal/190188

Foto de Diário Catarinense / Hora de Santa Catarina



Zezinho é um cara de sorrisos. É um cara que cumprimenta todas as gentes e que todo mundo quer apertar a mão – e nem político é. É um homem certinho, não tem? Mas como ele bem diz, já foi um istepô danado quando mais novo.  Um manezinho intizicado, que se recusa ouvir "não" como resposta quando a causa é digna. É um monxtro das lutas sociais de Florianópolis e está em todas. Literalmente, ele está em todas. Acreditem nisso.

Nascido e criado na Costeira do Pirajubaé – portanto avaiano – José Roberto Leal, 67 anos, é o presidente da Associação Florianopolitana de Deficientes Físicos (Aflodef) e também o presidente da Associação dos Pequenos Comerciantes do Camelódromo Municipal de Florianópolis. De manhã, ele pode ser encontrado às 8h30min no escritório do camelódromo no Centro ou perambulando entre os boxes; ou ainda na calçada, agindo como um fiscal de obras públicas: "tem que desentupir essa boca de lobo aí. Se chove, pode atingir as lojas", avisou ele, na semana passada.

Logo após o almoço, por volta de 14h, ele parte para a Aflodef, na Agronômica. Ali, organiza, junto com funcionários e voluntários, atividades de esportes, informática, geração de trabalho e outras ações de inclusão para pessoas com algum tipo de deficiência física de todo o Estado. No início da noite, ele volta para o camelô. De lá, só sai quando estiver tudo nos trinques. Chega em casa depois das 21h, todos os dias. Nos fins de semana, quando está de folga, fica até meio perturbado. Ficar parado não é pra ele.

O meio de locomoção de Zezinho, que o leva de um canto ao outro da cidade, é o carro. De vez em quando também é o ônibus ou van. Ué? Vocês esperavam o quê? Que disséssemos cadeira de rodas? Este manezinho luta justamente para que a cadeira de rodas se torne, de uma forma metafórica, invisível. Não porque ela não seja necessária – muito pelo contrário: mas para que deixe de ser um apelo para olhares de descaso, de pena, e que ela não seja mais um peso na hora de políticos tomarem decisões que melhorem a vida das pessoas. Que não seja mais motivo de impedimento a qualquer coisa. Que, finalmente, signifique direitos iguais.



Foto de Marco Fávero / Diário Catarinense


Família e a normalidade

José é o quarto filho mais novo e uma renca de 17 irmãos. Filho do Roberto João Leal e da  Maria Leal, Zezinho teve paralisia infantil aos 11 meses de idade, num período em que não se tinha o que fazer quando a doença surgia.

— Enquanto as crianças estavam aprendendo a andar com esta idade, eu parei. Não tive meus primeiros passos — lamenta.

E mesmo sendo "diferente" dos irmãos, Zezinho afirma que nunca foi tratado de forma distinta pelos pais.

— Eu era malandro. Às vezes queria fazer manha e pedia para eles pegarem algo para mim, e minha mãe dizia: "se quer café, vai lá pegar". Na escola também, se eu aprontava também me colocavam de castigo. Enquanto os outros ficavam de joelho na areia de pedra, a professora me colocava sentado, que também doía — lembra ele.

Zezinho se arrastava pelo chão para se locomover desde bebê. Ele não tinha cadeira de rodas naquela época. Até hoje, a palma de sua mão está judiada pelos arrastos. O problema é que quanto mais ele crescia, mais seus ossos atrofiavam.

— Quando eu tinha sete, oito anos, meu irmão Antônio, que era mais velho, trabalhava como motorista da primeira-dama do Estado, dona Edith Gama Ramos (esposa do então governador Celso Ramos). E ela falou que ia fundar o primeiro centro de reabilitação do Estado e que os médicos iam me ajudar. Ela criou o centro e eu fui o primeiro paciente — relembra.

Na época, o local ficava na Rua General Bittencourt, no Centro da cidade. Sua mãe o levava todos os dias para o centro para fazer fisioterapia. Com pouca melhoria, Zezinho precisou ser encaminhado para um tratamento pesado com um ortopedista do Hospital da Caridade.

— O Dr. Aragão chegou a estudar o meu caso nos Estados Unidos. E ele voltou com duas opções para mim, ou fazer uma cirurgia que me fizesse perder os movimentos da perna, mas que não deixaria a perna um graveto - como manezinho diz; ou que eu fizesse o tratamento mais difícil e longo, que poderia ter mais chances de melhora. Eu optei pelo mais difícil — contou Zezinho, que na época tinha apenas oito anos de idade.

O tratamento consistia em engessar as pernas para elas ficarem retas. Era doloroso e no verão o gesso coçava demais. Mas deu um resultado positivo para aquele momento e, emocionado, Zezinho lembra que ao fim do tratamento ganhou o presente mais importante de sua vida: um par de muletas, feitas de madeira, que seu pai, carpinteiro, fez especialmente para ele.



Foto: Arquivo Pessoal de José Roberto Leal



Primeiro trabalho

Um dia, quando Zezinho já tinha mais ou menos 14 anos, seu pai reuniu a família para almoçar e disse algo que o marcou para sempre: "O pai e a mãe daqui uns anos não estarão mais aqui. Seus irmãos talvez também não possam cuidar de você. Você vai ter que dar um jeito sozinho".

E assim foi. O pai levou o jovem Zezinho para trabalhar com ele num dos tabuleiros (os atuais boxes) que ele tinha no Mercado Público de Florianópolis. Pouco tempo depois, ele mesmo começou a trabalhar sozinho, numa mesa onde vendia coisas como naftalina, pasta de dente e outras "bugigangas" como ele diz. Sua primeira profissão foi então camelô. Olha a ironia! Pouco tempo depois, comprou seu próprio tabuleiro no Mercado, onde vendia calçados. Aqueles sapatos legais como tênis Bamba, sapatilhas Melodia e galochas para pescadores.

Em outra fase da vida, o homem abriu uma banca de jornal. Conseguiu expandir para três, e em pontos estratégicos da cidade: na praça do banco redondo, que fica na Mauro Ramos, na Praça XV de Novembro e na Pracinha dos Namorados, na Beira-Mar. O trabalho lhe deu a oportunidade de conhecer muita gente importante. Fez amizade com a chefia do Besc, e passou a ser o responsável por distribuir os jornais para todos os diretores do banco.  

— Até que um dia o Jorge (Bornhausen, que na época era o presidente do Besc) passou na banca, na véspera de Natal, e disse que queria conversar comigo. Fui lá no Besc e ele me ofereceu um emprego. Fazer a mesma coisa que eu já fazia e ser o responsável pela distribuição dos jornais, mas empregado — contou.

E lá foi Zezinho. Vendeu as bancas e trabalhou 17 anos no Besc. Quando Bornhausen assumiu o Governo do Estado, chegou a ocupar cargos comissionados. Também foi indicado politicamente para posições na prefeitura da Capital. É por isso que o homem tem tanta lábia e sabe articular no meio. Conhece a coisa de dentro para fora. E hoje, usa a experiência para ajudar quem precisa.



Foto de Diógenes Pandini / Diário Catarinense


Ligeiro

Zezinho se acaba de rir ao contar de sua juventude. Era um malandro, como ele diz. Trabalhava adoidado durante o dia, mas durante a noite, só queria saber de festa, quando solteiro. Teve dias que ia dormir às 4h, para levantar às 6h.

— Teve uma festa que estava do lado de uma mesa, e vi três mulheres cochichando e olhando para mim. Fui lá, né. O "aleijadinho" tá na área. Não tô morto, não _ ri alto.

Teve dois filhos quando novo — casou pela primeira vez aos 17 e se separou aos 20 —, e mais tarde, no segundo casamento, teve outros três: os mais novos têm 15 anos. É casado com a dona Cleoni Correa Vidal e agora se aquietou, garante.



Foto: Arquivo Pessoal de José Roberto Leal


Aflodef

A Aflodef não foi fundada por Zezinho. Apesar de hoje ele ser o rosto principal da associação, o homem só assumiu o órgão em 2003. A entidade estava quase fechando as portas, sem visibilidade e investimentos.

— Então eu disse que ia assumir. E aí começamos um trabalho de inclusão mesmo, não só de entrega de cadeiras de rodas. Abrimos o time de basquete adaptado, e temos atendimento aos pais de cadeirantes para explicar que eles não devem tratar os filhos ou familiares de forma diferenciada. Quero ensinar o que meus pais fizeram por mim e que foi tão importante. O que a gente busca é igualdade — explicou.

Quando virou presidente da Aflodef, Zezinho até se arrepia ao contar: a associação na época ficava na mesma Rua General Bittencourt, onde ele iniciou, quando criança, seu tratamento e a busca de sua inclusão. A vida de Zezinho deu voltas, tanto na sua luta por direitos iguais como em sua profissão: começou camelô, e hoje é presidente do camelódromo. Buscou inclusão, e virou referência na causa. Opa, mô quirido! Caiu um cisco aqui.  


*Texto de Caroline Stinghen, de Hora de Santa Catarina

Retirado de: http://dc.clicrbs.com.br/sc/estilo-de-vida/noticia/2017/09/conheca-a-historia-do-zezinho-da-aflodef-e-do-camelo-de-florianopolis-9884956.html

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